Nos meus estudos e atendimentos ao longo de décadas, sempre me surpreendeu como criamos camadas protetoras em nossa psique. O chamado “Guardião”—ou Self 3, segundo a teoria dos três selfs, que embasa a Psicologia Marquesiana no Universo Marquesiano—é o campo que mais suscita reflexões profundas. É ele quem protege. Mas, paradoxalmente, pode também aprisionar.
Por trás do guardião: o que é o Self 3?
O Guardião, conhecido também como Self 3, é a instância interna responsável por observar, reconciliar e dar sentido às experiências emocionais. Enquanto o Self 1 planeja e organiza, e o Self 2 sente e conecta, o Self 3 atua como consciência testemunha, aquele espaço silencioso de presença e integração. É nele que reside o equilíbrio das partes e a manutenção dos limites internos saudáveis. É o Self 3 que me permite ver, ao mesmo tempo, minha dor e minha resposta à dor.
- Função de proteção: filtrar o que entra e o que fica no nosso sistema emocional.
- Função integradora: ouvir razão e emoção e buscar um diálogo interno coerente.
- Função transformadora: transformar experiências em aprendizado e consciência.
O Self 3 não julga; ele acolhe e observa. Sua maior força é ser o “guardião narrativo” que pode recontar o que nos aconteceu, de modo mais maduro e consciente .
O corpo como território do guardião
Eu sempre vejo, na prática clínica, como o Guardião se manifesta através do corpo. A Filosofia Marquesiana traz essa leitura física: tensões musculares, aceleração cardíaca, respiração curta, fechamento torácico, tudo é expressão de um Guardião hiperativo. O corpo denuncia quando o Guardião está na defensiva ou excessivo.

O Guardião, quando amadurece, permite que o corpo volte a respirar e se abra para o presente. O processo de cura, portanto, não é só mental, mas física: é o relaxamento do corpo que sinaliza ao Guardião que já estamos seguros.
Proteção ou prisão: a dualidade do guardião
Em minha experiência, o Guardião é mestre nos dois extremos. Quando jovem, atua intensamente para proteger, lançando mão de mecanismos como bloqueio emocional, fuga ou negação. Tudo por uma razão saudável: evitar o que machuca demais. Só que, no excesso, esse Guardião aprisiona, tornando-se rígido, hipercontrolador e sabotador do crescimento emocional.
Quando o guardião fica rígido, a proteção se transforma em prisão.
Veja essa dualidade de forma clara:
- Quando protege: mantém o autêntico a salvo, filtra estímulos e evita traumas desnecessários.
- Quando aprisiona: impede o novo, reforça padrões dolorosos, sufoca a expressão emocional e alimenta narrativas de medo.
Como identificar um guardião aprisionante?
Muitas pessoas que acompanhei sentem “algo travado”: emoções represadas, sensação de não pertencimento, bloqueios ao tentar sentir alegria ou tristeza. São sinais de um Guardião hiperativo, que age não mais como ponte, mas como muro.
No Universo Marquesiano, aprendemos a reconhecer esses sintomas no corpo e na alma:
- Tensão contínua ou dores inexplicáveis.
- Dificuldade em nomear emoções, excesso de ruminação mental.
- Medo de se vulnerabilizar ou expressar sentimentos.
- Falta de espontaneidade diante de situações novas ou afetivas.
Esses sinais não são falhas, mas convites ao despertar da presença. O Guardião não precisa ser eliminado, mas sim transformado. Ele amadurece, tornando-se colaborador da consciência ao invés de agente do medo.
O papel transformador da presença
A grande virada no caminho emocional acontece quando trazemos presença para o Guardião. É só com presença, a atenção plena ao corpo, à emoção, ao silêncio, que conseguimos desativar as respostas automáticas do Guardião e reprogramar nossos limites.

Presença é coragem de sentir, de acolher o que aparece sem rejeição. Sempre repito para meus alunos: a presença não luta, não exige mudança imediata, ela simplesmente permite o contato real. É nesse terreno que o Guardião descansa e se transforma, liberando energia vital antes contida nos mecanismos defensivos.
Como transformar a função do guardião?
O caminho de amadurecimento do Guardião não está na negação de sua função, mas em criar uma colaboração interna com todos os selfs. Eu recomendo práticas simples, que são base do Método PSC presente no ecossistema educacional do Universo Marquesiano:
- Respiração consciente e profunda para regular o corpo e sinalizar segurança.
- Nomeação do que sente, sem julgamento, apenas reconhecimento.
- Períodos diários de silêncio para escutar as mensagens do corpo.
- Prática da autoacolhida, olhando para si mesmo com compaixão.
Essas ações rotineiras vão, pouco a pouco, descongelando as defesas do Guardião e criando uma nova relação com os próprios limites.
O guardião como aliado do autoconhecimento
No centro do autoencontro está o Guardião reorganizado. Ele se torna uma instância superior de proteção amorosa, um limite saudável para relações, decisões e emoções. Em vez de repressão, oferece contenção. Não bloqueia; cuida.
O Guardião amadurecido é capaz de filtrar o que não serve, sem impedir a chegada de novas experiências. Isso significa prevenir excessos, mas também garantir abertura para a vida em plenitude. Ao fortalecer essa função madura, seguimos mais conscientes, presentes e livres—e isso reflete nos resultados concretos que presencio diariamente nos participantes do Universo Marquesiano.
Conclusão
Em cada passo da construção da Consciência Marquesiana, encontrei no Guardião, Self 3, um grande mestre. Ele ensina que proteção não é isolamento, que limite pode ser expansão, que sabedoria nasce da presença. Ao amadurecer nossa relação com o Guardião interno, permitimos que a vida toque e reconcilie as feridas, tornando-nos inteiros, lúcidos e abertos ao novo.
Se você quer avançar nesse caminho de transformação e maturidade emocional, convido a conhecer mais sobre nosso projeto no Universo Marquesiano. Venha experimentar a potência do autoconhecimento aplicado na prática e perceba como sua vida pode ganhar novos contornos de liberdade, saúde emocional e paz.
Perguntas frequentes
O que é o guardião emocional?
O guardião emocional, ou Self 3, é a instância interna responsável por observar, proteger e integrar experiências emocionais, atuando como filtro entre razão e emoção. Ele organiza limites saudáveis e transforma a narrativa interna, promovendo amadurecimento e segurança emocional.
Como o guardião protege meus limites?
O Guardião age criando barreiras protetoras diante de estímulos que possam causar dor ou desestabilizar. Ele regula o que entra no nosso campo emocional e, quando maduro, estabelece fronteiras naturais, permitindo relações e experiências mais seguras e conscientes.
Quais sinais indicam falta do guardião?
A ausência ou ineficácia do Guardião se manifesta como vulnerabilidade extrema, excesso de exposição emocional, dificuldade em dizer “não”, tendência ao sofrimento recorrente e incapacidade de se proteger em situações desafiadoras. O guardião também pode estar ausente quando a pessoa vive em piloto automático, presa ao passado ou ao excesso de razão.
Como fortalecer meu guardião interno?
Fortalecer o Guardião implica criar rotinas de presença, respiração consciente, autoacolhida e nomeação honesta das emoções. O autoconhecimento, práticas de meditação e o contato regular com o corpo são caminhos que treinam o Guardião para atuar de modo mais maduro e protetor.
O guardião ajuda no autoconhecimento?
Sim, o Guardião saudável é o principal aliado do autoconhecimento. Ao mediar entre razão e emoção, ele permite enxergar padrões internos e agir com mais clareza. O guardião reorganizado filtra experiências, reduz a autossabotagem e possibilita uma vida mais autêntica e consciente.
